Escrevi várias coisas para acompanhar esse texto, mas a net sempre travava, então vai assim mesmo:O professor pobretãoPor Italo Moriconi
São seis horas da manhã, final de verão. O professor deixa que se abra uma fresta em seus olhos. Do lado oposto à cama em que se encontra deitado, por entre a fímbria das pálpebras e as frestas da veneziana semi-fechada, vê que o dia será cinzento. Águas de março estão por vir, pensa. Amanhã, segunda-feira, recomeçam as aulas na Universidade onde leciona. Animado, termina de abrir a janela dos olhos e se dispõe a entregar-se para o mundo, sentando-se à beira da cama. Agarra com um gesto brusco o relógio de pulso na cabeceira para verificar de perto a hora exata, com seus olhos míopes. Seis e cinco. Professores e militares, raças de madrugadores. Ele se pergunta se quando se aposentar vai ficar como o tio coronel, que depois de passar à reserva, deu para levantar-se diariamente só depois das dez, onze horas. Ou quem sabe vai ficar como as mulheres mais velhas da família, que antes da cinco já estão de pé, arrastando chinelos e ligando a televisão sem sequer esperar que o céu demonstre a que veio – chuva ou sol. Chuva e sol.
Uma nuvem corriqueira de ansiedade acompanha seus passos pela casa, enquanto executa abluções e obrigações fisiológicas, pega o jornal debaixo da porta, passa os olhos rapidamente pelas manchetes políticas nacionais e internacionais e pelo caderno de variedades. A caneca de café com pouco leite lhe restitui completa a lucidez, que se projeta para fora das janelas, agora inteiramente abertas, e ricocheteia na claridade plena do dia. Dia claro, céu cinzento. Talvez não chova, fique só na ameaça. O calor já não é mais opressivo. Imagina as 30 ou 40 caras inquisitivas que receberão das mãos dele, amanhã, a folha impressa com o programa do curso para este semestre, o primeiro de 2006. Depois, as outras 30 ou 40 caras, da turma da noite.
Ele não sabe o que pode acontecer com este programa de curso tão pensado, tão carinhosamente refletido. Ninguém sabe. Fala-se numa greve geral das Universidades públicas. Mais uma. Daquelas que se arrastam por meses e meses, sem resultado palpável no bolso. A extensão das férias para além do final do verão – prevê – será vivida como pesadelo. Com os dias excessivamente agenda em aberto, ele vai ficar igual barata tonta, tentando aproveitar os nacos de tempo livre inesperado para tocar seus outros mil e um deveres e projetos, dispersos e proliferantes. Desejo de abandonar a profissão, chutar o pau da barraca, correr atrás agora, aos 45 anos de idade, do sonho de viver para escrever. A literatura como disciplina de ensino versus a literatura como criação artística. Escrever o quê, meu deus. Qualquer coisa. Literatura se faz com qualquer assunto. O que importa é o como. O com-quantos-paus. E que haja pelo menos um leitor ou leitora receptivos do outro lado. Para quem escreve por necessidade indefinida, por grafomania, o outro lado pode ser uma incógnita tão vasta quanto o oco do mundo depois da minha morte, é nisso que ele pensa agora. Dia sem sol é assim, lucidez revestida de nebulosas.
A tela de seu notebook se acende em Microsoft XP. Girando em torno de si mesmo, reencontrando com os olhos já encaixados nos óculos o caos vertiginoso produzido por seus livros e papéis espalhados pelo chão e pelas prateleiras que cobrem as quatro paredes do gabinete de trabalho, o professor se certifica de sua pobreza ascética, que é sua riqueza. Sua pobreza ascética. Sem familiares na cidade, sempre sem tempo ou vontade de ir ao cinema, de sair para baladas, de dar um simples telefonema. O rígido orçamento. Em flash, a imagem do casal de filhos já praticamente, subitamente, adultos, morando longe com sua ex-mulher, primeira e única. Levam mais da metade de sua renda fixa mensal. E o professor sabe que levam pouco, sinceramente gostaria de dar mais. Mas não revela o quanto ganha com seus bicos, seus extras. O carinho dos filhos lhe é concedido de volta, em proporções adequadas, nas ocasiões rituais. Perguntas embaraçosas ficam no ar, jamais enunciadas. Trabalha-se na pauta da alegria. O casamento não tinha durado nem cinco anos. Fôra um delírio erótico, logo transformado em êxtase uterino por parte de sua mulher. Ele viajou na maionese e quando voltou do sonho tinha conquistado uma credencial de homem.
Depois da separação não traumática, todos seguiram em frente, com muitos por favores e alguns muito obrigados. Ele aceitou sem muito pensar a verdade de vida que se revelou, que acreditou destino. Pobreza ascética, riqueza de professor. Com seus vídeos, CDs, DVDs e principalmente computador. Aceitou e se acomodou, no ativismo estático da vida profissional. O medo. Como na cena de dias atrás. A cena da semana. Depois de uma troca intensa de olhares, parou numa esquina encostado a um poste para conversar com um rapaz desconhecido, afoito, um amazonense bem vestido e sensual que não queria dinheiro, só queria um beijo, uma noite de amor viril. Queria talvez matar a saudade dos botos safados, os maduros da sua terra. Apesar de surpreendido pela contundência inusitada de sua própria ereção, o professor conduziu a conversa para lugar nenhum. Mentiu para o rapaz dizendo não morar sozinho e não ter local aonde pudessem ir.
Não pode suportar a idéia de expor-se, atravessar o portão do condomínio onde fica sua casa acompanhado de um garotão bonito, em pleno horário da novela. Mal sabe ele que os olhares dos vigias e da câmera na guarita não estão nem aí. Tem também a família vizinha, dois filhos adolescentes que o admiram de montão. Gostam de vir contar-lhe casos de namoro e ficada e quando passa pela rua – sempre a pé, porque não tem carro – os meninos, de farra, lhe batem continência e o chamam de padrinho. Ele pensa: já me desdobro na generosidade tanta de cuidar e olhar para cada um de meus alunos e alunas, dispenso a intimidade presencial com alguém. Minha riqueza é o solilóquio que transformo em diálogo, sublimemente libidinoso, mas cansativo, a cada dia, a cada dia na ribalta, repetindo renovadamente o espetáculo e a platéia, a cada dia dar e receber, e dar e doar, e nunca doer, não pode doer, a sedução não é para fazer doer.
O pam-pam-pam da Microsoft lhe avisa que pode conectar a internet para receber a correspondência do dia. Sua intimidade é com o mundo, com as grandes questões. Ó nuvens corriqueiras da ansiedade. Gostaria de abraçar o mundo com as mãos. Gostaria de dar conta de todas as facetas da realidade, conhecer todas as filosofias, ver todos os filmes. Gostaria de ser o presidente ou o rei – e governar por decreto, consertar tudo que está errado, explicitar todos os conflitos e promover sua negociação.
O professor se preocupa com o destino da nação. A tal ponto que este ano tomou uma decisão importante. Renunciou – não sabe se definitivamente - à idéia de que o mais importante a fazer dentro de sua sala de aula seja incentivar o exercício da consciência crítica dos jovens. Ele que intelectualmente foi educado e se preparou a vida inteira para desestabilizar o senso comum, desta vez incluiu em seu programa de curso a leitura obrigatória e integral do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, um poema edificante e patriótico, todo feito de pérolas líricas e versos perfeitos. Resolveu dar um toque ginasiano e anacrônico a seu curso universitário. Lidar com o oposto do Oswald e do Drummond e do Roberto Piva e da Ana Cristina e da Hilda Hilst. Nem tão oposto assim, será? Ponto, contraponto. Sousândrade, Castro Alves. E aquela melancolia que em última instância sobrepaira a tudo assinado Cecília, o noivado com a morte, evoca o clima de Alejandra Pizarnik, de Sylvia Plath.
O professor apaga metade dos e-mails do dia sem sequer abri-los. Não é possível aceitar a realidade moral brasileira tal como ela se apresenta a seus olhos. Tudo bem, a campanha da mídia contra a corrupção no governo Lula foi armação do grupo que queria afastá-lo do PT e jogá-lo nos braços do PMDB. Mas além do sucesso comprovado desse plano, o que sobrou da grande confusão foi um presidente e uma classe política sinalizando para a sociedade que caixa dois e sonegação são justificáveis e compreensíveis, crimes menores. E se a imagem de Lula não foi afetada pela campanha orquestrada, credite-se simplesmente ao fato de que a imensa maioria do povo-na-rua acredita com convicção que política é isso mesmo – rapinagem, ladroagem, enriquecimento ilícito. Para não falar da ponderável proporção da opinião pública que acha que política não só é, como deve ser, ladroagem, no sentido de que para muitos cidadãos e cidadãs comuns no Brasil a única coisa que pode justificar alguém tornar-se político é a chance de “ajudar” a si e aos seus.
De modo que o bombardeio histérico da mídia durante a Grande Confusão nada fazia senão confirmar o que o povo já sabia. Na verdade, buscava-se manipular dois dados psico-sociais: o cinismo dos desinformados e a ira dos diplomados. Inédito mesmo é o tamanho da pizza, se comparado com o de outros escândalos parlamentares que estouraram desde a redemocratização. Desta vez, pela primeira vez desde 1988, a impunidade e o cinismo do poder saíram não só ilesos, mas reafirmados e transformados em valor positivo.
O professor tem uma convicção muito forte, que ele sabe que pode ser tão ilusória quanto as nuvens impotentes do cinismo popular e da ira espetaculosa da classe média. Ele acredita que há aí um problema de educação e de Educação. Não existe mais educação política na escola brasileira. Não existem mais Moral e Cívica, OSPB, matérias da escola antiga que nos tempos atuais deveriam ser recriadas como aulas teóricas e práticas de Ética e Cidadania. Criaram a Filosofia, para criticar, mas esqueceram a Cívica, para construir, impor limites, chequeios e balanços. Cívica democrática, entenda-se bem. Limites consensualmente estabelecidos. Autoridade sim, por delegação livre da maioria e precedência moral para os direitos das minorias. Mas autoridade. Ponto. E o contraponto: toda autoridade deve ser permanentemente questionada.
O professor se lembra de quando ainda morava para o Rio, no começo dos anos 80, chegado de fora para fazer faculdade, subitamente adulto, recém-juntado e logo em seguida casado. Lembra como lhe parecia bonito e novo o espetáculo da austeridade pessoal do governador Brizola e seus secretários, que exerciam os mandatos sem aparatos ou carros oficiais. No serviço público, a pobreza é riqueza, nisso ele pensa, ao levantar agora do computador para a primeira xícara de cafezinho do dia e as duas baforadas no paraguaio. Austeridade material é requisito indispensável ao exercício da carreira política. Ninguém pode entrar para a política pensando em enriquecer. É como ser professor. Quem quer ficar rico, não opte por esta profissão. A riqueza do professor é sua pobreza ascética. Mesmo quando ganha viagens para congressos e se torna cosmopolita. Uma pobreza ascética prazerosa, cercada de livros, CDs, etc. etc. Não se trata de miséria. Mas cuidado com o pós-aposentadoria, que pode revelar-se experiência ingrata.
Duas baforadas e pluft – viraram fantasmas as nuvens de ansiedade. O sol perfura uma fresta no céu cinzento. A tela transmigra do Outlook para o Word. É a noção mesma de serviço público, da sacralidade do serviço público, que importa recuperar e ensinar. A política como serviço público. A escola a serviço da idéia de serviço público. O professor faz uma pose, fere uma tecla, opta por escrever um poema. Será seu poema de domingo. Sua crônica em versos. A serviço de si mesmo.
Italo Moriconi – escritor e professor. Autor de A Provocação Pós-Moderna (ensaio acadêmico, 1994), Ana Cristina César – O Sangue de uma Poeta (perfil biográfico, 1996) e Como e Por Que Ler A Poesia Brasileira do Século XX (ed. Objetiva, 2002). Organizou as antologias Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2000) e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2001). Editou Cartas de Caio Fernando Abreu (ed. Aeroplano, 2002). Publicou 3 plaquetes de poesia: Léu (1988), Quase Sertão (1996) e História do Peixe (2001). Recentemente teve trabalhos publicados nas revistas Grumo (Rio/Buenos Aires) e Margens (Belo Horizonte/Salvador/Buenos Aires). E-mail:
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